Morre Valdir da Mazuca de Agrestina

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O corpo do artista está sendo velado na residência do mesmo, Rua José Vamberto Pereira, N° 23, Loteamento Nezinho Maciel, em Agrestina, Pernambuco. O sepultamento será amanhã, dia 9 de abril, às 10h, no Cemitério São Sebastião _(Cemitério Novo

*Valdir Manoel da Silva*, 45 anos de existência, foi um dos personagens mais importantes da *Mazuca de Agrestina*, uma das tradições populares mais antigas do Estado de Pernambuco. As retinas dos seus olhos de menino captaram esse universo encantado desde muito miudinho, em Brejinho de Cajarana (zona rural de Agrestina), onde fora nascido e criado. O ofício, como acontece tradicionalmente, aprendeu com os avós, na sutil arte dos mais velhos de repassar ensinamentos valiosos que, muitas vezes, só transforma-se em ponto de reflexão quando se vira gente grande. Com oito anos de idade já era dançarino, e sem instrumentos, batia mazuca no pé e na palma na mão, com o incentivo do pai, mãe e avós, que não ficavam de fora da espontaneidade festiva dos brejos agrestinos.

Assim como garantem os registros históricos orais, contou que no passado a mazuca era a essência da construção e aterro de casas. A pancada do pé socava o chão de barro batido e pronto, estava feito o piso da casa, relembrou em entrevista à TV Pernambuco (TVPE). A mente lembrava com clareza que uma grande quantidade de pessoas se envolvia folcloricamente. No mês junino contratavam um sanfoneiro para tocar, mas o intervalo era no compasso da mazuca. Nas suas memórias tinha dança, alegria, milho assado, pamonha e canjica, dividindo o mesmo espaço. A festa animada que habitava suas singelas lembranças se transformou em um fio condutor para o que foi sua profissão e missão de vida. Fazedor de cultura era como se intitulava.

A migração da zona rural para a cidade se deu após os seus 20 anos de idade. Naquele momento a Mazuca de Agrestina presenciou o parto de um compositor, cujas loas _(termo pelo qual as músicas de mazuca são conhecidas)_ começaram a conceber a identidade do grupo. O primeiro passo foi aprender as loas já existentes, e logo em seguida pegou alguns versinhos com Dona Amara – a Rainha da Mazuca – que lhe renderam muita inspiração. Pouco tempo depois estava criando músicas de sua própria autoria, como orgulhosamente contou em entrevista. E dessa terra semi-árida brotou um grande cantor e compositor, que transformou em arte e cultura as suas andanças pelo campo.

Em sua família quase todos dançavam, mas o destaque musical ficou a cargo dele. Contou com o privilégio de poder ter o pai e a mãe integrando o grupo e perpetuando a tradição que aprenderam com os pais, avós de Valdir. O fazedor de cultura atuou em grande estilo, tocando, dançando e cantando, fazendo do seu corpo um jubiloso templo de entusiasmo e disposição. O ritmo, que era mais compassado e mais lento, ganhou uma nova formatação com o vigor e potência vocal deste mais jovem discípulo. _“Essa mazuca tem muita resistência, é muito antiga, vem de longa data. Eu me sinto muito feliz em poder participar e atuar como cantor, compositor e puxador da Mazuca de Agrestina”_, disse.

Na época em que vivia na área rural as apresentações eram raras, mas após migrar para a cidade muita coisa mudou. Valdir lembrou dos muitos festivais que participou e das muitas cidades que visitou levando a sua estrondosa voz, enérgica e afiada, cujas vibrações não deixavam ninguém parado.

As viagens de trabalho eram como uma pílula da felicidade para ele e todos os integrantes do grupo, que sentia-se extremamente animado em apresentar suas habilidades para outros públicos. Fazer cultura não é tarefa fácil. Ele achava que muitas pessoas não valorizavam por uma questão de gosto, uns gostam e outros não, e essa era a sua maneira de filosofar sobre esse fenômeno. Fazer cultura tem um custo-benefício muitas vezes desanimador. Valdir Manoel lutou enquanto teve forças. Servidor público da Secretaria de Cultura e Turismo do município, pasta que mantém e ampara o Grupo Cultural Mazuca de Agrestina através de políticas públicas, teve a oportunidade de realizar um importante trabalho de preservação.

Com aproximadamente 20 músicas compostas, confessava que a sua preferida era _“Pisei na Rama”_, pois lembrava-se da convivência com Dona Amara, a quem ele considerou como sendo sua segunda mãe ou mãe de alma. Além de despertar memórias afetivas sobre seus avós e sua infância no brejo. Sua última música, segundo ele, foi composta para atualizar e marcar uma nova fase do grupo. _“Vem pra cá menina, vem dançar bonito com a Mazuca de Agrestina é o refrão. Essa eu também gosto muito porque foi aqui na cidade de Agrestina que ganhamos influência”_, contou.

A mazuca significava muito para ele, arriscando dizer até que significa tudo, pois era o seu ofício, o que ele aprendeu a fazer de melhor, era tudo que tinha em sua vida. Era sua própria vida. Quando ia até as escolas transmitir seus conhecimentos encontrava dois extremos, os que acolhiam e se enchiam de curiosidade e interesse e os que mantinham resistência e não se sentiam atraídos por sua própria cultura. Valdir Manoel, em meio a um yin-yang de forças por horas revitalizantes, por horas desesperançosas, apenas prosseguia. _”Eu acho muito interessante quando eu vou para uma sala de aula que a professora chama os alunos. Na hora, uns querem e outros não querem. Mas a gente tem que ensinar a eles né? Eu me sinto muito feliz em dar aula para eles”_, explicou resiliente.

Quando questionado sobre se ele se imaginava fazendo outra coisa a resposta era rápida e objetiva . _“Não! Eu nasci dentro da mazuca, me criei dentro da mazuca e até hoje estou na mazuca, posso até chegar a fazer outra atividade, mas jamais vou deixá-la. Minha missão é passar adiante, para a próxima geração”_, enfatizava.

O legado de Dona Amara continuou, e, com Valdir, ganhou identidade própria.O Agreste de Pernambuco era berço de diversas mazucas, que segundo ele eram cercadas por diversas diferenças. Em sua percepção a Mazuca de Agrestina possuia mais ritmo, e o trupé diferenciado garantia esse requisito, habilidade da qual ele se orgulhava. _“Eu mesmo dou mais ritmo a ela. A diferença da nossa para as outras, como tem a Mazuca Pé Quente do Auto do Moura em Caruaru, Pernambuco, é o ritmo deles que, no meu ponto de vista, é muito lento. São como as bandas de forró que tem vários ritmos, a mesma coisa é a mazuca”_, disse em entrevista.

Na malinha de mão do seu coração colocava orgulho e dignidade e seguia até as escolas para realizar um trabalho que não era nada fácil, oferecer um tipo de música e cultura de que os jovens estão cada vez mais distantes, influenciados pelos novos modelos musicais provenientes da globalização.

A mazuca, por conseguinte, é a própria resistência, mas o receio de que esse esse fenômeno de esquecimento, apagamento e desprezo pudesse levar muito mais de um século de tradição ao túmulo, era para ele um fantasma real. _“Eu tenho bastante medo que um dia acabe, tem horas que eu fico pensativo imaginando porque os jovens não querem participar, tem deles que dizem que é dança de velho e eu digo que não é assim, é dança pra todo mundo. Ela precisa ser passada de geração em geração para sobreviver, é um trabalho difícil, mas a gente tem que estimular. Mas eu creio! quem sabe no futuro se eles não podem até querer?”_, disse.

A semente da salvaguarda foi plantada, enraizou e brotou. E cientes de que a cultura não morre quando seus fazedores partem, se despede da sua passagem terrena o filho mais novo de uma das mais importantes tradições seculares do Estado de Pernambuco.

O corpo do artista está sendo velado na residência do mesmo, Rua José Vamberto Pereira, N° 23, Loteamento Nezinho Maciel, em Agrestina, Pernambuco. O sepultamento será amanhã, dia 9 de abril, às 10h, no Cemitério São Sebastião _(Cemitério Novo)._