Caso Beatriz: mãe acredita que assassino da filha é o divulgado pela polícia; defesa nega após carta

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Após os pais da menina Beatriz Angélica percorrerem mais de 700 km em 23 dias de caminhada de Petrolina, no Sertão do São Francisco, em direção ao Recife, para cobrar respostas pelo assassinato da filha, que ocorreu em 2015, as autoridades anunciaram ter identificado o autor do crime: Marcelo da Silva, de 40 anos, por meio de exame de DNA encontrado na faca usada no crime. O presidiário, que foi apontado pela Secretaria de Defesa Social, há uma semana, como assassino confesso, se diz inocente em carta divulgada ontem (18) por seu novo advogado, Rafael Nunes, alegando que confessou o crime sob pressão da polícia. Em coletiva realizada na manhã desta quarta-feira (19), o advogado reforçou a inocência do acusado. A mãe da vítima, Lúcia Mota, em live realizada pelo Instagram, disse que acredita que o homem apresentado pela polícia é o assassino da sua filha e que existem detalhes do depoimento dele que apenas o verdadeiro autor do crime poderia saber.
“Eu tenho acesso ao inquérito, nossos advogados e às pessoas que tecnicamente lidam diariamente com a criminologia, são opiniões técnicas. Nós passamos todos esses dias analisando esse vídeo. Hoje tive reuniões e recebi relatórios do depoimento. Tem coisas que ele fala que só o assassino saberia. Identificamos na fala dele. Quando ele fala que reagiu porque Beatriz gritou. Isso é mentira. Ele está se defendendo porque ele sabe que a pena pode ser aumentada. Se ele disser que foi ali [na escola] para praticar um crime, vai aumentar a pena dele. Ele é esperto, mas não é inteligente. Por isso que ele diz no depoimento que Beatriz o viu armado e gritou. É mentira! Beatriz jamais se comportaria daquela forma, porque ela nunca passou por nenhum momento de risco na vida dela. Ela poderia ver uma pessoa armada e jamais perguntaria porque ela estava armada. Então, é mentira”, disse Lucinha, na live realizada no fim da noite da segunda-feira (17).

Marcelo confessou, em interrogatório, ter cometido o crime, e disse que matou a menina porque ela gritou após ele pedir que ela ficasse calada. Durante a transmissão, a mãe de Beatriz afirmou que acredita que o homem já tinha um perfil definido e que acredita que ele não agiu sozinho. “A gente consegue identificar ali, porque ele abordou Beatriz de forma brusca. Ele foi ali para tirar a vida de uma criança. E ele queria uma menina. Porque nós temos vídeos que mostram outras crianças do sexo masculino, descendo na área do bebedouro e ele não capturou, nem se quer abordou os meninos. Ele só abordava meninas. Então ele tinha um perfil, ele já sabia quem queria abordar”, diz.

“Eu ouvi a oitiva dele, a sua confissão, a gente consegue encontrar esses elementos. O DNA é para fechar, é o cheque-mata. Não tem como dizer que não é o DNA dele, porque está lá. A forma como ele deixou o DNA, mais ainda. Existem diversas formas de deixar o DNA num crime. A forma como ele deixou o DNA dele, reforça a tese de que é ele”, complementou Lucinha.

Em coletiva realizada na manhã desta quarta-feira (19), o novo advogado de defesa, Rafael Nunes, disse que está numa fase inquisitorial de investigação. “Ele externou a vontade de pedir socorro. Questionei a confissão e ele disse que foi na base da pressão. Não informaram quem era o advogado e nem que ele tinha direito de ficar calado. Viabilizei no parlatório o papel e a caneta. Foi o primeiro contato que eu tive com ele”. A coletiva aconteceu no Empresarial Excelsior, na Avenida Ernesto de Paula Santos, em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife.

O novo advogado explicou que teve contato com Marcelo após uma conversa de algumas horas e que não teve tempo de explorar detalhes.“Não tive acesso ao processo ainda. É um processo extremamente volumoso, beirando 40 volumes, mais de 400 horas de gravação com uma parte digitalizada e outra não. Oito delegados e oito promotores passaram pelo processo e não se chegou ao assassino de Beatriz. Não tivemos acesso à perícia, mas o delegado já viabilizou a cópia. A defesa começa de fato no processo. Estamos em uma fase inquisitorial, de investigação”, explicou.

O advogado também enumerou questões que não foram respondidas. “Por que só agora saiu esse confrontamento genético? Como se deu esse melhoramento? É muito fácil colocar na conta de um andarilho com um histórico terrível. Muitas perguntas precisam de respostas como a escola apagando imagens, chaves perdidas, delegado sendo afastado do caso. Existe perícia no processo que a menina Beatriz foi morta em outro lugar e conduzida através de um saco plástico, uma bacia, até a sala. Essa perícia tem que ser analisada, reavaliada para ver a credibilidade desse caso. (…) Eu preciso saber como ele entrou e como ele saiu da escola. Ele trocou de roupa no local? Tem muitos rumores, muitos segmentos”, disse o advogado.

O advogado ainda disse que as provas não são conclusivas e apoiou a federalização do caso. “Independente da carta já existiam questionamentos. A carta é algo a mais, mas até a mãe da menina tinha esse questionamento. Evidentemente teremos cenas dos próximos capítulos. O que um advogado de defesa pode fazer, eu irei fazer”. Ele ainda reforçou que: “Todo mundo tem direito a uma defesa técnica. Se não sou eu, será outro. Ele será defendido com unhas e dentes. Os crimes que ele cometeu, terríveis, ele tem que pagar. Mas ele vai pagar pelo que ele cometeu. A Federalização do caso tem que acontecer. Não estou defendendo um estuprador. Eu estou defendendo a inocência dele neste inquérito [Caso Beatriz]”, finalizou.

Durante a transmissão, a mãe da menina Beatriz denunciou que documentos da investigação foram vazados. “O crime não foi ainda 100% solucionado, porque o delegado responsável pelo inquérito ainda está investigando. A Secretaria de Segurança de Pernambuco, cometeu um erro muito grave. Vazaram documentos resultados de perícias, e muitas informações nos últimos dias. E isso pode atrapalhar futuramente. Isso mostra que tem pessoas que querem atrapalhar completamente a investigação”, disse Lucinha.

Na ocasião, Lucia reforçou o pedido de federalização do caso. “Mais uma vez eu vou fazer uma denúncia com relação a isso. Quem vazou vai pagar pelos crimes que cometeu. E se o Estado de Pernambuco não investigar, nós vamos a outras instâncias, vamos para a instância Federal”, pediu.

Sobre o assassino confesso, a mãe da vítima pediu para que ele fosse transferido do Presídio de Igarassu, para o Sertão do São Francisco, onde o crime ocorreu. “O que queremos é que o estado garanta a integridade física dele e a vida dele. O estado tem obrigação de garantir isso. Ele tem que vir pra cá para Petrolina. Ele tem que responder pelo crime que cometeu aqui. As coletivas de imprensa, a Polícia tem que dá aqui em Petrolina. O crime aconteceu aqui. Quem tem que dar a entrevista é o delegado que está à frente da investigação. É ele que tem que esclarecer para a sociedade o que está acontecendo. Não é o chefe de polícia, não é chefe de departamento de polícia científica. Quem tem que dar entrevista é o delegado. O delegado não terminou as investigações, está no meio”.

“O Caso Beatriz está botando a prova, mostrando à sociedade como é que funciona o nosso País. O povo está vendo verdadeiramente como funciona um inquérito. Quem está no meio, quem está manipulando, quem está ditando as regras. O povo está vendo ao vivo essa lambança que estão fazendo. O Judiciário não se manifesta, o Ministério Público não se manifesta. Pelo amor de Deus. Foi a vida de uma criança que foi tirada de uma forma bárbara e cruel”. A mãe da vítima ainda disse : “Eu não acredito que ele agiu sozinho. Não é só sentimento de mãe. São as evidências. Não sou especialista, mas tenho pessoas que são especialistas e me orientam. O vídeo dele caminhando é a prova maior do que ele planeja fazer. O comportamento dele ali. Nós temos certeza que o assassino é esse apresentado pela polícia na semana passada, pois tivemos acesso ao inquérito e as informações”, finaliza a mãe.

Diario de Pernambuco
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